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Comunicação e Expressão
Professores autores
Rosanne Bezerra de Araújo
Karen Christina Pinheiro dos Santos
Aula 7 – O texto teatral
 
Apresentação

Nesta aula, você conhecerá o gênero teatral a partir de trechos de peças teatrais. Perceberá como se constrói os diálogos e os sentimentos, através da fala de personagens, cujas expressões os definem em suspense, romance, drama e/ou comédia. Ao conhecer as características do texto teatral, através de atividades, você também terá oportunidade de produzir diálogos de algumas cenas teatrais.

 
Objetivos
 

Com esta aula, esperamos que você seja capaz de:

  • reconhecer o gênero teatral a partir de leituras em trechos de peças de teatro;
  • identificar as características dialógicas dos roteiros de peças teatrais;
  • produzir um texto teatral seguindo suas características.
 

Caracterizando o texto teatral

Nesta aula, assim como em algumas aulas que você já estudou, vamos usar as atividades como ponto de partida para você entender mais um tipo de gênero: o teatral. Você deve ficar atento ao responder as atividades, pois é a partir delas que entenderá o conteúdo. Você fará uma atividade com uma leitura de um trecho da peça de teatro, Esperando Godot (1948), de Samuel Beckett (1906-1989), escritor irlandês, que escreveu peças tanto em inglês como em francês. A peça traz dois personagens: Estragon e Vladimir. Ambos esperam por outro personagem chamado Godot. Como mostra o título da obra, eles permanecem embaixo de uma árvore, esperando Godot. Ocorre que Godot nunca chega. A espera é vã. Ainda assim, os personagens continuam na mesma paisagem, a espera. Observe o sentimento retratado nas falas de Estragon e Vladimir.

 
Estragon:
Lugar encantador. (Dá a volta, caminha em direção à boca de cena, junto à plateia) Esplêndido espetáculo. (Volta-se para Vladimir). Vamos embora.
Vladimir:
A gente não pode.
Estragon:
Por quê?
Vladimir:
Estamos esperando Godot.
Estragon:
Que era para esperar.
Vladimir:      
Ele disse: perto da árvore. (Olham para a árvore) Está vendo mais alguma?

Estragon:
É o quê?
Vladimir:
Um chorão, eu acho.
Estragon:
E as folhas?
Vladimir:
Deve estar morto.

Estragon:
Chega de choro.
Vladimir:
A menos que não seja época.
Estragon:
Para mim, parece mais um arbusto.
Vladimir:
Um arbúsculo.
Estragon:
Um arbusto.
Vladimir:
Um... (Recobra-se) O que você está querendo dizer?
Que erramos de lugar?
Estragon:
Ele devia estar aqui.
Vladimir:
Não deu certeza de que viria.

 

Estragon:
E se não vier?
Vladimir:
Voltamos amanhã.
Estragon:
E depois de amanhã.
Vladimir:Talvez.
Estragon:
E assim por diante.
Vladimir:
Ou seja...
Estragon:
Até que ele venha.
Vladimir:
Você é implacável.
Estragon:
Já viemos ontem.
Vladimir:
Ah, não, aí é que você se engana.
Estragon:
Então, fizemos o quê, ontem?
Vladimir:
Ontem? O que fizemos ontem?

Estragon:
É.
(...)
Estragon:
Tem certeza de que era hoje à tarde?
Vladimir:
O quê?
Estragon:
Que era para esperar.
Vladimir:
Ele disse sábado. (Pausa) Acho.
(...)
Estragon:
Mas que sábado? E hoje é sábado? Não seria domingo? Ou segunda? Ou sexta?

(...)
 
Atividade 1
 

Após a leitura desse trecho da peça, responda:

  1. O espaço da peça é definido?
  2. Comente o título da peça: Esperando Godot.
  3. Caracterize a relação que se estabelece entre Vladimir e Estragon.
  4. A árvore parece ser um ponto de referência para os dois personagens. Comente a importância da presença da árvore na encenação da peça. Caracterize a árvore.
  5. Como a memória é retratada pelos personagens? Cite passagens do texto que comprovem uma deficiência na memória.
  6. Observe a fala de Estragon logo no início da peça:

“Lugar encantador. (Dá a volta, caminha em direção à boca de cena, junto à plateia) Esplêndido espetáculo. (Volta-se para Vladimir). Vamos embora.”
Qual a função das frases em itálico?

  1. Como você interpreta a espera por Godot? Na sua opinião, quem ou o que representa a figura de Godot?

 

   
 

Vamos conhecer, agora, as características do texto teatral?

Vamos conhecer, agora, as características do texto teatral? O texto teatral apresenta um emprego particular do tempo. Como a ação é representada e não contada por um narrador (como geralmente ocorre nos textos narrativos), o texto teatral faz coincidir o tempo de ficção, ou seja, o tempo da duração dos fatos, como o tempo de representação.
Veja agora as características do texto teatral escrito.

  • Texto que serve à representação teatral.
  • Normalmente dispensa o narrador.
  • Contém os elementos básicos da narrativa: fatos, personagens, tempo e lugar.
  • Apresenta discurso direto como estrutura básica de construção do texto e desenvolvimento das ações.
  • Identifica o nome da personagem antes de sua fala.
  • Apresenta rubricas de interpretação e de movimentos. As “rubricas” funcionam como a fala do narrador. Geralmente essa fala vem entre parênteses e em itálico.
  • O nível de linguagem é adequado à personagem e ao contexto.
  • Às vezes, apresenta divisão em atos.

Fonte: Cereja e Magalhães (2000, p.72-73).

Bem, como você pôde observar, essas características direcionadas ao texto teatral são bem gerais. Mas vejamos, de forma mais profunda e clara, alguns pontos relevantes do teatro contemporâneo, particularmente o de Samuel Beckett, cuja peça você acabou de ler.
Vamos olhar atentamente esses pontos?

Pontos a serem observados

  • O narrador passa a ser substituído por uma rubrica, ou seja, por uma voz que narra ou descreve a situação e os movimentos do personagem. Essa fala, que não é a fala do personagem, aparece em itálico, como se fosse um narrador intruso, explicando detalhes ao leitor.

Veja o exemplo:
Vladimir:      
Ele disse: perto da árvore. (Olham para a árvore) Está vendo mais alguma?

  • Geralmente o tempo e o espaço são bem definidos numa peça teatral. No entanto, a obra de Samuel Beckett pertence ao Teatro do Absurdo, um estilo teatral desenvolvido nos anos do pós-guerra. Assim sendo, as paisagens são áridas e os personagens não nos dão pistas de que ano ou geração a peça pode ser enquadrada. De fato, o tempo e o espaço nesse tipo de teatro são indefinidos. Sabemos somente que dois vagabundos esperam, continuamente, embaixo de uma árvore, por Godot. A desesperança e a falta de sentido são retratos da época difícil do pós-guerra.
  • Aqui você pôde ler somente um pequeno trecho da peça, mas a obra como um todo é formada por 2 atos. O trecho apresentado na atividade pertence ao Ato I.
  • O nível de linguagem dos personagens é condizente com o contexto do pós-guerra retratado por eles. As falas são curtas e não denotam sentimentalismo. Os breves diálogos mostram a frieza e a falta de memória dos personagens.
 
Atividade 2
 

  1. Após a leitura explicativa sobre as características do texto teatral, volte ao trecho de Esperando Godot e observe se as características e os pontos listados acima aparecem na peça.
  2. Reflita sobre a estrutura do texto teatral. Qual a sua impressão a respeito da peça “Esperando Godot”? Você sente curiosidade de ler a peça inteira? Justifique sua resposta.

   
 

Leia agora um trecho da peça Auto da Barca de Camiri (1968), da escritora brasileira Hilda Hilst (1930-2004).

 

TRAPEZISTA (no trapézio):
Senhores:
No nosso tempo de desamor e lamento
É raro ser bom prelado                                                                                      
Ser passarinheiro
Ou trapezista.
Escurecimento. Ruído de metralhadoras. Silêncio.
UMA VOZ (tom de comando, em tensão):
No coração!
No coração!
Logo em seguida, estampido de um tiro de revólver. Luz.
JUIZ JOVEM: Que lugar, santo Deus! Que lugar! Isso é uma injustiça.
JUIZ VELHO: Social?
JUIZ JOVEM: Não, não! Obrigarem-no a fazer esta visita. E depois, (olha ao redor) veja bem: só nós dois. Não deveríamos ser três?
JUIZ VELHO: (sempre sem muito interesse): Três?
JUIZ JOVEM: Três! Três! O relator, o revisor e o terceiro.
(...)

 
Atividade 3
 

Esse trecho, apesar de breve, revela a tensão da época em que a peça foi escrita: o auge da ditadura militar no Brasil. De acordo com a sua interpretação do trecho, responda ao que se pede.

  1. Qual fala na peça denuncia o tempo desumano da ditadura?
  2. Há um sentimento de justiça na peça?
  3. Há uma voz que ordena uma ação. Qual o comando dessa voz?

 

   
 
Esperamos que essa aula tenha despertado sua atenção para o teatro. De fato, o teatro traz a “voz” e a “expressão” dos personagens, personagens estes que retratam a individualidade de cada um de nós e a tornam pública. Assim como a vida, o teatro é palco de justiças, injustiças, dor, solidão, alegria, amor, desesperança, espera (como a espera por Godot). Finalmente, o teatro é palco de todos os sentimentos humanos. Enquanto houver vida sempre haverá a arte do teatro, a arte de representar a vida, por ela mesma.
 
Leitura complementar

Não pare por aqui. Busque mais informação sobre o teatro. Nos links que sugerimos a seguir, você encontrará rica informação sobre a história do teatro desde os gregos até a contemporaneidade. Desfrute de sua pesquisa e boa leitura!
Pesquise na internet sobre o teatro. Eis alguns temas e sugestões de links:

  • O teatro grego :

<http://www.suapesquisa.com/musicacultura/teatro_grego.htm>

  • O teatro na Idade Média:

<http://liriah.teatro.vilabol.uol.com.br/historia/teatro_medieval.htm>

  • O teatro de bonecos:

<http://augustobonequeiro.wordpress.com/2007/04/14/historia-do-teatro-de-bonecos/>

  • O teatro brasileiro:

<http://liriah.teatro.vilabol.uol.com.br/historia/teatro_brasileiro.htm>

  • O teatro do absurdo:

<http://www.passeiweb.com/saiba_mais/arte_cultura/teatro/absurdo>

Caso você queira ler peças teatrais de Shakespeare aos contemporâneos, este é um link que traz o texto completo de muitas peças: <http://www.theatro.ocrocodilo.com.br/textos.html>

 
Resumo
Nesta aula, você estudou o gênero do texto teatral. Você viu que o texto teatral possui semelhanças com o texto narrativo. No entanto, agora você sabe que, como não há narrador, já que esse é substituído pela rubrica, a ação no texto teatral ganha forma através da voz e da expressão dos personagens.
 
Autoavaliação
  1. Leia o trecho abaixo de Ortega y Gasset e imagine como ele tomaria corpo no texto teatral.

Um homem ilustre agoniza. Sua mulher está junto ao leito. Um médico conta suas pulsações. Ao fundo do quarto há mais duas pessoas: um jornalista, que assiste a cena do óbito por razão do seu ofício, e um pintor que, por acaso,  foi conduzido até ali. Esposa, médico, jornalista e pintor presenciam o mesmo fato. No entanto, este único e mesmo fato – a agonia de um homem – toca cada um deles de maneira diferente.

  1. Reflita sobre as características contidas no texto para transformá-lo em uma peça. Tendo em mente a situação narrada acima, crie um esboço das categorias a seguir.
  1. Caracterize o espaço.
  2. Caracterize os personagens: homem, médico, esposa, pintor e jornalista.
  3. Apresente a situação narrada: a morte de um homem importante.  
  4. Esboce uma reflexão acerca da importância que a morte desse homem tem para cada um dos personagens.
  5. Após refletir e descrever a situação narrada, você vai agora construir o texto teatral dessa cena narrativa. Siga as sugestões.
  1. Crie um perfil para cada personagem. Imagine se o personagem será frio, distante, emotivo, indiferente etc. diante da morte do homem, e tente retratar a personalidade de cada um deles através das falas.
  2. Apresente rubricas, esclarecendo e interpretando a cena para o público.
  3. Caso queira, crie um conflito. Invente um final para a história.
  4. Crie um título para a sua peça.

 

Referências

BECKETT, Samuel. Esperando Godot. Trad. Fábio de Souza Andrade. São Paulo: Cosac&Naify, 2005.

CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. Texto e interação: uma proposta de produção textual a partir de gêneros e projetos. São Paulo: Atual, 2000.

HILST, Hilda. Auto da Barca de Camiri. Teatro completo. São Paulo: Globo, 2008.

ORTEGA Y GASSET, José. La deshumanización del arte y otros ensayos estéticos. Madrid: Revista Del Occidente, 2004.

 
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